Universidade Federal de Sergipe
Aluno: Glauco Moura Santos
Data: 25/03/2013
Prof: Dr. Antônio Lindivaldo
Resenha
AMARAL,Sharyse Piroupo do.Escravidão,
liberdade e resistência em Sergipe: Contiguiba, 1860-1888.Salvador, 2007.
De referência quase que
obrigatória para aqueles que intencionam enveredar pela historiografia da
escravidão, o livro “Escravidão, liberdade e resistência em Sergipe:
Contiguiba, 1860-1888”, é ,sem dúvida, um trabalho primoroso de pesquisa e
reflexão acerca da escravidão em Sergipe e no Brasil. Ao penetrar na História
da escravidão em Sergipe, a autora Sharyse Piroupo do Amaral nos põe diante dos
debates travados nos interstícios do fazer historiográfico. Este é um trabalho
que procura desvendar – ou/e compreender – como a atuação dos negros
escravizados teve sua parcela de contribuição para o fim da escravidão. Nas
palavras da autora “Buscar compreender os sentidos políticos das atitudes
dos escravos, no contexto específico das transformações pelas quais passava a
sociedade brasileira, na segunda metade do século XIX, algumas delas provocadas
por escravos...”(P. 23).
Criteriosa, no trato com
as fontes, a autora inicia seus estudos acerca da escravidão mostrando-nos um
panorama geral do da situação escravista em Sergipe, no período que vai de 1960
à 1988, que, segundo a autora, a definição de um tempo mais curto se
justifica-se pelo interesse da mesma em trabalhar com uma maior diversidade de
fontes, ou seja, delimitar foi importante para que a tese ganhasse maior
consistência no trato com as fontes, e também por se tratar de um período em
que os ânimos em relação ao trabalho escravo estavam acirrados. O mesmo se dá
com os limites geográficos(Região do Vale do Contiguiba), por esta ser a mais
importante região escravista em Sergipe nesse período.
No primeiro capitulo,
adentramos na história do açúcar em
Sergipe, lembrando que é durante esse período que se dá a formação de uma
possível cultura negra advinda junto com a escravidão, esta, principal mão de
obra nos canaviais. Com o fim do tráfico negreiro, na segunda metade do século
XIX, o que se percebe é que, no Brasil, o sistema escravocrata começa entrar em
colapso. Entretanto, é importante entender as particularidades de cada região
afim de compreender como esses acontecimentos geraram consequências
diversificadas em cada contexto. Em Sergipe, o plantio de cana-de-açúcar fora
bastante tardio, se comparado a outras regiões do Nordeste. Entretanto, esse
fora um fator importante, pois a fato das terras dessa região estarem
“descansadas”,e serem de boa qualidade(massapê) para o plantio da cana,
serviram para que se desenvolvesse, nessa região, um tipo autonomia e
desenvolvimento econômico, ainda que tardio. Outra característica marcante, é
que nestas terras – Contiguiba – mesmos os grandes proprietários não dispunham
de grandes porções de terra, tampouco dispunham de grande poder aquisitivo.
Isso torna-se importante, na medida em que todas essas características dos
proprietários vão determinar o tipo de relação que predominaria entre senhor e
escravo nesta região. Com a alta do preço do açúcar, no mercado internacional,
a produção de açúcar no Vale do Contiguiba passa a ser um importante núcleo de
produção para o mercado externo. Aumentando assim, durante esse período, o
número de engenhos, assim como, o aumento e desenvolvimento dos principais
centros urbanos na província. A autora ainda busca mostrar como estava divida a
sociedade do açúcar nesse período, a partir das condições populacionais como:
condição jurídica e cor. Em relação a condição jurídica estavam divididos em:
livres, libertos e escravos. Já as condições do fenótipo se dividiam em:
brancos, índios , pretos e pardos. Outra característica dos engenhos nesta
região é a pequena quantidade de escravos devido a pouca condição desses
senhores. Essa característica será marcante, pois ,devido a esse fator,
desenvolveu-se um tipo de relação entre senhor e escravo, ainda que o termo
“adocicada” ,empregado por Gilberto Freyre não caiba, fora bastante diferente
de outras regiões produtoras de açúcar. Com o fim do tráfico negreiro e a
instituição da lei do ventre livre, a relação entre senhor e escravos passa a
tornar-se bastante acirrada.
No segundo capitulo é
possível visualizar esses conflitos a partir da situação em que se encontravam
os escravos na segunda metade do século XIX. Aqui a autora discute algumas
formas de resistência que ajudaram a minar por dentro o sistema escravista. Para a autora a fuga era bastante comum nos
engenhos dessa região. O ato da fuga poderia ter motivos bastante diversos,
seja por maus tratos, ou para visitar parentes,ou mesmo para trabalhar em
outros engenhos. O importante é que nem sempre o motivo principal da fuga
estava necessariamente associada a uma busca por liberdade por parte dos escravos, ainda que o ato de
fugir tenha servido indiretamente para sacudir e desestabilizar a sociedade do
açúcar. A fuga era mais comumente praticada por escravos jovens e do sexo
masculino, ainda que esta não seja uma regra, e que mesmo mulheres e escravos
idosos constem nos autos de fuga, essa prática era mais comum entre os jovens.
A autora explica que nas últimas décadas da escravidão, a mão-de-obra escrava
estava escassa, ou seja, os poucos escravos que existiam estavam
sobrecarregados, pois seus senhores não queria que a produção de açúcar
entrasse em colapso. Para fugir, os escravos necessitavam de estratégias que
lhes garantissem sucesso nessa empreitada.Boa parte dos escravos fujões
adentravam nas matas,e formavam pequenos grupos – umas das características dos
ajuntamentos de negros em Sergipe é que eles nunca formavam grandes grupos para
não serem descoberto facilmente. Neste ponto a autora trava um debate que
vigora até hoje na historiografia sergipana que é se houve ou não quilombos
nessa região. Se tomarmos como exemplo Palmares, dificilmente encontraremos
aqui tal modelo de organização entre negros fugidos. Os escravos em Sergipe
utilizavam da tática de guerrilha no mato, o que dificultava a captura na mata.
Outra tática, era descer pelos rios que cortam o Vale do Contiguiba e ir pra
capital ou para uma região mais distante. Ou mesmo cometer crimes para ser
preso pela polícia, evitando assim piores tratos por parte do seu senhor. Era
comum também o uso de documentos falsos, ou documentos de alforria de outros
escravos já falecidos. E fuga foi sem duvida o meio mais eficaz de resistência
dos negros, ainda que nem sempre a motivação fosse o fim efetivo do sistema
escravocrata.
O terceiro capitulo a
autora dedica a uma análise dos Mocambos na região do Contiguiba.Reforçando a
ideia de que os ajuntamentos de negros em Sergipe não seguia um modelo
palmarino,e ,sim, consistia em agrupamentos de negros fugidos em pequenos grupos,os
chamados: mocambos. Entretanto, para alguns historiadores, o ato de se
dividirem em pequenos grupos tornou a ação dos escravos “desagregadora” e
incapaz de subverter a ordem escravista.Era comum a associação de ajuntamentos
de negros com o aumento da criminalidade.Isso deixava a sociedade sergipana e
as autoridades apreensivas. Uma coisa importante acerca desses ajuntamentos,é
que mesmo estando restritos, eles mantinham uma complexa rede de colaboração
externa.Nas últimas décadas de escravidão se deu significativamente um aumento
da quantidade de ajuntamentos na região do Contiguiba.Isso demonstra que os
negros também já percebiam a decadência daquele sistema,ainda que de modo
bastante difuso, criando várias táticas de
negação de uma condição de sujeição vivida por eles.
Dentre os recursos para
a aquisição da liberdade, a autora trata, neste quarto capitulo, das vias
legais que os escravos dispunham para conseguir sua alforria.É notório que após
a segunda metade do século XIX, uma série de leis contribuem para por abaixo o
sistema escravocrata.No bojo desses acontecimentos, os escravos também souberam
se inserirem nessa nova ordem que se estabelecia na sociedade brasileira.
Amaral, traz a tona um debate complexo acerca da concessão de alforria por
parte dos senhores de engenho. Em parte, o que se discute na historiografia, é
se isto era uma concessão, ou seja, uma atitude de benevolência ou uma mera
forma de se livrar do escravo que já não mais servia?Dialeticamente é possível
entender essas duas teses concorrentes a partir de uma síntese sistemática que
fuja ao maniqueísmo. Alforria exercia um papel simbólica nas relações entre
senhor e escravo, ela era concedida na medida em que o escrava provava que era
merecedor de tal benefício, ou seja, ser leal e obediente para com o seu senhor
era uma delas.É visível que por trás do benefício estava uma complexa rede
ideológica de dominação.Outra prática comum,era a tentativa de liberdade por
meio da Justiça comum.
De leitura instigante,
quase impressionista no trato com as fontes,este livro nos põe diante das mais
variadas discussões acerca da escravidão no Brasil.Mas o que impressiona mais,
é como cada região possui suas próprias condições,e é diante das fontes que o historiador
vai desfazendo mitos dedutivos dos grandes métodos, analisando caso a caso sua
particularidades e seus revezes. Um exercício cuidadoso de reflexão,uma aula de
investigação historiográfica.
Agradeço,amo todos vocês.
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